quinta-feira, 14 de junho de 2012

A censura musical está de volta?


Depois de muitas décadas de uma considerável liberdade de expressão - seja ela de que tipo for - do povo brasileiro, que veio em seguida de muita luta contra os regimes ditatoriais, o Brasil - como já explanado em vários textos aqui neste espaço - passa por uma séria tendência de opressão aos que não atendem às expectativas de quem tem o poder às mãos. As instâncias policiais aparentam um indisfarçável incomodo com alguns artistas nacionais e partem para atos injustificáveis, como os noticiados recentemente contra Rita Lee e Emicida.

Não bastando o humor, a televisão e suas vertentes todas, as atitudes femininas e a maioria das produções artísticas estarem sendo amordaçadas pelos grandes poderosos (que agem na ponta do pé), agora a já tão sofrida e oprimida (nas décadas de 60, 70 e 80) música (popular) brasileira começa a ser perseguida sem nenhuma desculpa plausível.

No caso da subversiva Rita Lee, ela reagiu com bom humor aos militares após ver membros do seu fã clube serem agredidos naquele que fora anunciado como o último show da sua carreia com uma frase mais ou menos como "Não quero mais vocês aqui. Você são legais, mas vão lá fumar o baseadinho de vocês". Ofendidos e sem entender a "piada", os policiais fizeram uma corrente em torno do palco pra prender a cantora, que, ainda mais irritada, os xingou com palavras como "Filhos da Puta (sic), cachorros, cavalos!".

Ninguém aqui está defendendo Rita por sua deselegância ao xingar as autoridades, mas prender a cantora por uma piadinha feita depois de atitude truculenta dos próprios militares mostra o momento estranho que vivemos desde o fim da última década.

Mas o pior ainda estava por chegar. Em um evidenciamento da total falta de critério dos setores da justiça brasileira, o rapper paulistano Emicida foi preso - "por desacato às autoridades" - em Belo Horizonte após executar a música "Dedo na Ferida" em seu show na capital mineira. O single foi lançado por Emicida em seu blog no início de março. Com uma batida pesada, que remete à era mais politizada do rap, o músico critica a polícia e aborda as polêmicas em torno do despejo de moradores de Pinheirinho e da cracolândia de São Paulo, entre outras.

Assista ao clipe da canção diretamente no YouTube clicando aqui

O rap é “dedicado às vítimas do [favela do] Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância”, como o artista diz logo no início. Na letra, há frases fortes como "Auschwitz ou gueto? Índio ou preto?/ Mesmo jeito, extermínio""Dedo na ferida" foi produzida por Renan Samam, colaborador habitual do rapper, e o clipe foi dirigido por Nicolas Prado, parceiro de Emicida na produtora Laboratório Fantasma.

A assessoria de imprensa da Polícia Militar afirmou ao G1, portal de notícias da Rede Globo, que Emicida foi detido, após o término da apresentação, por ter incitado o público a fazer gestos obscenos contra policiais militares do 41º Batalhão, que faziam o policiamento no evento, e contra políticos. A PM, no entanto, não soube informar que se havia políticos presentes. Ainda de acordo com a corporação, Emicida foi, sim, levado algemado num carro de polícia até a 36ª Delegacia Seccional porque "o ato faz parte de qualquer processo de detenção".

O que impulsiona essas prisões? Medo da abertura da realidade? Ou o simples desejo pela volta da censura musical no Brasil? O fato é que a população é notoriamente contra essas atitudes brutas dos órgãos de segurança. Cerca de uma hora após a publicação de um post no perfil pessoal de Emicida informando a prisão do rapper, o hashtag #LiberdadeEmicida já ocupava o primeiro lugar nos trending topics (assuntos mais comentados) do Brasil no microblog. 

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